Cromeleque dos Almendres: 2 mil anos mais antigo que Stonehenge

O Cromeleque dos Almendres, localizado a 12 km de Évora, é o mais importante monumento megalítico da Península Ibérica e começou a ser construído no final do sexto milénio antes de Cristo. Com cerca de 95 monólitos de granito dispostos em círculos e elipses, o sítio é aproximadamente 2000 anos mais antigo que as primeiras fases de Stonehenge.

Cromeleque dos Almendres: 2 mil anos mais antigo que Stonehenge

> O Cromeleque dos Almendres, localizado a 12 km de Évora, é o mais importante monumento megalítico da Península Ibérica e começou a ser construído no final do sexto milénio antes de Cristo. Com cerca de 95 monólitos de granito dispostos em círculos e elipses, o sítio é aproximadamente 2000 anos mais antigo que as primeiras fases de Stonehenge.


A cerca de 12 quilómetros a oeste da cidade de Évora, no topo de uma encosta suave voltada para o nascente, ergue-se um dos conjuntos megalíticos mais impressionantes da Europa. O Cromeleque dos Almendres reúne cerca de 95 monólitos de granito numa área de aproximadamente 70 por 40 metros, dispostos em padrões que revelam três fases distintas de construção ao longo de milénios. Quando as primeiras pedras foram erguidas ali, por volta do ano 5000 antes de Cristo, o famoso círculo de Stonehenge ainda demoraria cerca de 2000 anos para começar a tomar forma.

Classificado como Monumento Nacional desde 2015, o sítio arqueológico dos Almendres não é apenas mais antigo que o seu congénere britânico: é também o mais relevante do seu tipo em toda a Península Ibérica, tanto pelas dimensões quanto pelo estado de conservação. A descoberta, feita em 1964, e as décadas de investigação arqueológica que se seguiram revelaram um espaço sagrado que foi reutilizado e ampliado por comunidades neolíticas durante mais de dois mil anos.

A descoberta que mudou a arqueologia portuguesa

O Cromeleque dos Almendres permaneceu oculto sob a vegetação até 1964, quando o investigador Henrique Leonor Pina o identificou durante os trabalhos de levantamento da Carta Geológica de Portugal. Na ocasião, foi realizada a limpeza da vegetação do sítio, e foram encontradas peças de cerâmica e um machado de pedra polida que confirmavam a antiguidade do local. Grande parte dos monólitos estava caída quando o sítio foi descoberto, resultado de milénios de abandono e da ação dos elementos.

As campanhas arqueológicas subsequentes, organizadas ao longo de várias décadas por Mário Varela Gomes da Universidade Nova de Lisboa, permitiram recolocar os monólitos nas suas posições originais e mapear com precisão a disposição de cada pedra. A equipa de Varela Gomes também identificou nas imediações um pequeno povoado calcolítico, numa tentativa de localizar o povoamento associado aos monumentos megalíticos. Hoje, cada monólito do conjunto está numerado e registado numa planta detalhada que documenta a configuração do sítio.

Três fases de construção ao longo de milénios

A análise arqueológica revelou que o Cromeleque dos Almendres não foi construído de uma só vez, mas sim em três etapas distintas que se estenderam do final do sexto milénio antes de Cristo até o início do terceiro milénio antes de Cristo. Cada fase reflete mudanças nas práticas rituais e na organização social das comunidades neolíticas que utilizavam o espaço.

A primeira fase, datada do final do Neolítico Antigo, por volta de 5000 antes de Cristo, consistiu na ereção de um conjunto de monólitos de pequeno tamanho agrupados em três círculos concêntricos. O maior desses círculos media 18,80 metros de diâmetro, enquanto o menor media 11,40 metros. Atualmente, há 22 menires de pé nesse recinto mais antigo, dois tombados e os restos das estruturas de sustentação de cinco outros que desapareceram ao longo dos milénios.

A segunda fase ocorreu durante o Neolítico Médio, no quinto milénio antes de Cristo, quando foi erguido a oeste dos círculos anteriores um novo recinto em forma de duas elipses concêntricas e irregulares, adossadas ao recinto mais antigo. A elipse mais externa mede 43,60 metros no eixo maior e 36 metros no eixo menor, configurando uma ampliação significativa do espaço sagrado. Foram encontrados ali 29 menires de pé, 17 tombados e estruturas de sustentação de 11 menires já desaparecidos.

A terceira e última fase, no Neolítico Final durante o terceiro milénio antes de Cristo, transformou profundamente a configuração do conjunto. Os dois recintos foram modificados, especialmente o menor, que passou a funcionar como uma espécie de átrio do recinto maior. É possível que o recinto menor tenha passado a orientar a entrada no recinto elíptico, desempenhando uma função específica nas solenidades sócio-religiosas realizadas no local. Nesse período, é provável que tenham sido acrescentados os monólitos com gravuras e que alguns menires tenham sido parcialmente aplainados, transformando-se em estelas.

A engenharia neolítica por trás das pedras

Os monólitos do Cromeleque dos Almendres são predominantemente de pequeno tamanho, com formas ovoide, sub-paralelepipédica e sub-cilíndrica. Alguns, porém, chegam a atingir 2,5 a 3 metros de altura e apresentam forma fálica ou estelar. A análise geológica revelou que as pedras são compostas por diferentes tipos de quartzodioritos, o que indica origem variada para os materiais utilizados na construção.

Dois afloramentos de quartzodioritos e granodioritos localizados a 250 metros e a 1000 metros do cromeleque podem ter sido as fontes de onde as pedras foram extraídas e esculpidas. Os menires maiores foram assentados em alvéolos previamente preparados, buracos que chegam até o substrato rochoso e que exigiram considerável trabalho de escavação com ferramentas de pedra. Uma coroa de pedras era colocada ao redor da base de cada monólito, depois coberta de terra e pedras menores para garantir a estabilidade da estrutura.

Esse método de fixação revela conhecimento técnico sofisticado por parte das comunidades neolíticas. O transporte das pedras, mesmo que de distâncias relativamente curtas, exigia coordenação de grupos de pessoas e provavelmente o uso de troncos como roletes e cordas feitas de fibras vegetais. A escolha de pedras de diferentes afloramentos sugere critérios específicos de seleção, possivelmente relacionados com a aparência, a textura ou mesmo significados simbólicos atribuídos a diferentes tipos de rocha.

Os menires decorados e seu significado

Dez dos monólitos do Cromeleque dos Almendres apresentam decoração em relevo ou gravura, elementos que fornecem pistas importantes sobre as crenças e a organização social das comunidades que construíram o sítio. Quatro desses monólitos possuem apenas covinhas, uma série de pequenos buracos escavados na pedra cuja função exata permanece em debate entre os arqueólogos.

O menir 48 apresenta uma pequena figura antropomórfica associada a um báculo. Já o menir 57 exibe, numa face propositalmente aplainada, uma série de 13 relevos em forma de báculos. Esses báculos provavelmente representam objetos de prestígio social feitos em xisto e materiais perecíveis. De facto, báculos de xisto são encontrados em monumentos megalíticos alentejanos, confirmando que esses objetos tinham importância ritual e simbólica.

Os menires 56 e 76 são particularmente notáveis por apresentarem representações antropomórficas mais elaboradas. O menir 56 possui, numa face aplainada, uma representação estilizada de uma grande face humana, com nariz, olhos e boca claramente definidos. Pode ser considerado uma estátua-menir, uma categoria de monumentos megalíticos que combina a função de marco vertical com a representação da figura humana.

O menir 64, localizado próximo ao centro do recinto maior, apresenta relevos em forma de raquetas e círculos. O menir 58 ostenta três representações de discos solares associadas a linhas onduladas que representam raios, uma iconografia que sugere preocupações com fenómenos celestes e possivelmente com a marcação de ciclos astronómicos.

O Menir dos Almendres e o alinhamento solar

A 1,3 quilómetros a nordeste do Cromeleque dos Almendres, no topo da encosta, ergue-se isolado o Menir dos Almendres, um monólito de granito porfiróide de grandes dimensões. Com cerca de 3,5 metros de altura a partir da superfície do solo e secção elíptica de 1,20 por 0,80 metros, este menir apresenta no terço superior uma decoração composta por um báculo e uma faixa de linhas onduladas.

Supõe-se haver uma relação íntima entre o Menir dos Almendres e o cromeleque, uma vez que o alinhamento entre os dois monumentos coincide com o nascer do sol no Solstício de Verão. Este alinhamento sugere que o conjunto megalítico funcionava também como um calendário astronómico, permitindo às comunidades neolíticas marcar momentos importantes do ciclo anual relacionados com as práticas agrícolas e pastoris.

O menir isolado foi reerguido pelo seu proprietário em época recente, e supõe-se que sua localização atual seja próxima da original, embora não se possa confirmar com absoluta certeza. O monumento permanece em propriedade privada e é cercado por uma vedação circular de estacas de madeira e arame. Mantém a classificação de Imóvel de Interesse Público, enquanto o cromeleque foi elevado à categoria de Monumento Nacional.

Comparação com Stonehenge: quem veio primeiro

A comparação entre o Cromeleque dos Almendres e Stonehenge é inevitável, mas os dados arqueológicos estabelecem claramente a precedência do monumento português. O sítio dos Almendres começa no final do sexto milénio antes de Cristo, por volta de 5000 antes de Cristo, enquanto as primeiras fases de Stonehenge datam de aproximadamente 3000 a 2500 antes de Cristo. Portanto, Almendres é cerca de 2000 anos mais antigo que o famoso círculo britânico.

Além da diferença cronológica, há também diferenças significativas nos materiais utilizados. Em Almendres, as pedras são de rocha local da bacia de Évora, extraídas de afloramentos situados a distâncias relativamente curtas do sítio. Göbekli Tepe, na Turquia, também revela conhecimento sofisticado de transporte e posicionamento de pedras monumentais em período ainda mais recuado, embora com características arquitetónicas distintas. Stonehenge, por sua vez, utilizou arenito sarsen e as famosas pedras azuis transportadas do País de Gales, numa distância de cerca de 250 quilómetros, o que representa um feito logístico ainda mais impressionante.

Essas diferenças refletem contextos culturais e ambientais distintos. As comunidades neolíticas da bacia de Évora trabalharam com os recursos geológicos disponíveis localmente, desenvolvendo um conjunto monumental que se expandiu organicamente ao longo de milénios. A configuração em círculos e elipses, a decoração dos menires e o alinhamento astronómico revelam preocupações rituais e práticas que podem ter sido semelhantes às das comunidades que posteriormente construíram Stonehenge, mas que se manifestaram de formas culturalmente específicas.

Quem construiu o Cromeleque dos Almendres

O Cromeleque dos Almendres foi construído por comunidades neolíticas de pastores e primeiros agricultores sedentários que habitavam a região de Évora entre o sexto e o terceiro milénio antes de Cristo. Estas comunidades já praticavam a agricultura e a domesticação de animais, atividades que permitiam uma vida mais sedentária e a acumulação de excedentes alimentares. A construção de um monumento desta escala exigia não apenas mão de obra, mas também organização social suficiente para coordenar o trabalho coletivo e sustentar os participantes durante a construção.

O conjunto era um espaço coletivo de reunião, utilizado para rituais de carácter mágico-simbólico e funcionando também como calendário astronómico. A Direção-Geral do Património Cultural de Portugal descreve o sítio como um exemplo de reutilização de um mesmo espaço sacralizado ao longo do tempo, onde sucessivas gerações acrescentaram novos elementos e adaptaram as estruturas existentes às suas próprias necessidades rituais.

No Calcolítico, período caracterizado pela introdução da metalurgia do cobre, o conjunto deixou de ser utilizado. Esta mudança provavelmente reflete a influência das sociedades de metalurgistas que substituíram a cultura megalítica atlântica, trazendo novas práticas funerárias e rituais que tornaram obsoletos os antigos círculos de pedra.

O que a arqueologia desmente sobre Almendres

Como acontece com muitos sítios megalíticos impressionantes, o Cromeleque dos Almendres tem sido alvo de especulações que não encontram suporte na evidência arqueológica. É importante esclarecer que o monumento não foi construído por celtas: os povos celtas chegaram à Península Ibérica milhares de anos depois, durante a Idade do Ferro, quando o cromeleque já estava abandonado há milénios.

Também não foi construído por fenícios nem por romanos, civilizações que surgiram muito posteriormente ao período de utilização do sítio. Não há qualquer relação documentada entre o Cromeleque dos Almendres e lendas sobre a Atlântida ou supostas intervenções extraterrestres. A arqueologia documenta claramente os instrumentos de pedra utilizados na construção e o povoamento das populações neolíticas locais, fornecendo uma explicação baseada em evidências para a origem do monumento.

Embora o sítio arqueológico abranja uma faixa cronológica ampla, do Neolítico Médio até a Idade do Ferro, os círculos de pedra propriamente ditos são neolíticos. As ocupações posteriores do local deixaram vestígios, mas não alteraram substancialmente a configuração megalítica estabelecida milénios antes.

Visitação e preservação do monumento

O Cromeleque dos Almendres situa-se em propriedade privada, mas a zona do monumento foi cedida à Câmara Municipal de Évora para uso público, permitindo que visitantes de todo o mundo possam conhecer este importante testemunho da pré-história europeia. A classificação como Monumento Nacional desde 2015 garante proteção legal ao sítio e estabelece diretrizes para sua conservação e gestão.

A localização no topo de uma encosta suave, a cerca de 12 quilómetros de Évora, oferece aos visitantes não apenas a oportunidade de contemplar os monólitos, mas também de experimentar a paisagem alentejana que serviu de cenário às práticas rituais neolíticas. O sítio está aberto ao público, embora seja recomendável verificar as condições de acesso antes da visita.

A preservação do Cromeleque dos Almendres enfrenta desafios comuns a monumentos megalíticos: erosão natural das pedras, crescimento de vegetação, e o impacto do turismo. A gestão cuidadosa destes fatores é essencial para garantir que as gerações futuras possam continuar a estudar e apreciar este extraordinário conjunto megalítico.

O legado científico do sítio

As investigações arqueológicas no Cromeleque dos Almendres, coordenadas por Mário Varela Gomes e sua equipa da Universidade Nova de Lisboa, contribuíram significativamente para a compreensão do Neolítico na Península Ibérica. O mapeamento detalhado dos monólitos, a identificação das três fases de construção e a análise das decorações gravadas nos menires forneceram dados essenciais para a interpretação das práticas rituais e da organização social das comunidades neolíticas.

O sítio está registado oficialmente nos sistemas de património português: o Cromeleque dos Almendres possui o número 3946 no Sistema de Informação para o Património Arquitetónico (SIPA) e o número 69690 nos registos da Direção-Geral do Património Cultural. O Menir dos Almendres isolado possui o número 35887 no SIPA. Estes registos garantem o acompanhamento institucional e a documentação sistemática do monumento.

A importância do Cromeleque dos Almendres estende-se para além das fronteiras portuguesas. Como o mais importante monumento megalítico da Península Ibérica e um dos mais relevantes da Europa, o sítio contribui para o debate internacional sobre as origens e o desenvolvimento das sociedades neolíticas, sobre os significados dos monumentos megalíticos e sobre as capacidades técnicas e organizacionais das comunidades pré-históricas.

Conclusão: um testemunho de 7000 anos

O Cromeleque dos Almendres permanece como testemunho impressionante da criatividade, da organização social e das crenças espirituais das comunidades neolíticas que habitaram a região de Évora há cerca de 7000 anos. Mais antigo que Stonehenge, mais extenso que qualquer outro conjunto megalítico da Península Ibérica, o sítio revela que as sociedades pré-históricas portuguesas possuíam conhecimentos astronómicos, capacidades técnicas e estruturas sociais suficientemente sofisticadas para conceber e construir monumentos que atravessariam milénios.

As três fases de construção, os menires decorados com figuras antropomórficas e báculos, o alinhamento solar com o Menir isolado, tudo isso compõe um conjunto que continua a fascinar arqueólogos e visitantes. Num tempo em que as grandes narrativas históricas tendem a privilegiar civilizações mediterrânicas e do Próximo Oriente, o Cromeleque dos Almendres lembra-nos que a inovação, a espiritualidade e a monumentalidade também floresceram nas colinas do Alentejo, muito antes da escrita, das cidades ou dos impérios.

Você conhecia a existência deste monumento megalítico português, ou Stonehenge era a única referência que tinha sobre círculos de pedra pré-históricos?


Perguntas frequentes

O Cromeleque dos Almendres é realmente mais antigo que Stonehenge?

Sim. O Cromeleque dos Almendres começou a ser construído no final do sexto milénio antes de Cristo, por volta de 5000 a.C., enquanto as primeiras fases de Stonehenge datam de aproximadamente 3000 a 2500 a.C. Portanto, o monumento português é cerca de 2000 anos mais antigo que o círculo britânico.

Quantos monólitos compõem o Cromeleque dos Almendres?

O conjunto é composto por cerca de 95 monólitos graníticos, dispostos em pequenos agrupamentos numa área de aproximadamente 70 por 40 metros. Estes monólitos foram erguidos em três fases distintas de construção ao longo de milénios.

Quem construiu o Cromeleque dos Almendres?

O monumento foi construído por comunidades neolíticas de pastores e primeiros agricultores sedentários que habitavam a região de Évora entre o sexto e o terceiro milénio antes de Cristo. Não foram os celtas, fenícios ou romanos, que chegaram à região milhares de anos depois.

Qual é a relação entre o Cromeleque e o Menir dos Almendres isolado?

O Menir dos Almendres está localizado a 1,3 quilómetros a nordeste do cromeleque. O alinhamento entre os dois monumentos coincide com o nascer do sol no Solstício de Verão, sugerindo que o conjunto funcionava como calendário astronómico para as comunidades neolíticas.

Quando foi descoberto o Cromeleque dos Almendres?

O monumento foi descoberto em 1964 pelo investigador Henrique Leonor Pina, durante os trabalhos de levantamento da Carta Geológica de Portugal. Na ocasião foram encontradas peças de cerâmica e um machado de pedra polida, e grande parte dos monólitos estava caída.

É possível visitar o Cromeleque dos Almendres?

Sim. Embora o sítio esteja em propriedade privada, a zona do monumento foi cedida à Câmara Municipal de Évora para uso público. O cromeleque está classificado como Monumento Nacional desde 2015 e localiza-se a cerca de 12 quilómetros a oeste da cidade de Évora.