Göbekli Tepe: o que os arqueólogos realmente descobriram
Göbekli Tepe, no sudeste da Turquia, foi considerado por anos o templo mais antigo do mundo, construído por caçadores-coletores e intencionalmente enterrado. Pesquisas recentes do Instituto Arqueológico Alemão mudaram radicalmente essa interpretação: o local era um assentamento com componente ritual, e o enterro foi um processo complexo, parte natural e parte humano.
> Göbekli Tepe, no sudeste da Turquia, foi considerado por anos o templo mais antigo do mundo, construído por caçadores-coletores e intencionalmente enterrado. Pesquisas recentes do Instituto Arqueológico Alemão mudaram radicalmente essa interpretação: o local era um assentamento com componente ritual, e o enterro foi um processo complexo, parte natural e parte humano.
Quando Klaus Schmidt redescobriu Göbekli Tepe em 1994, ele não imaginava que estava prestes a reescrever a cronologia da arquitetura monumental humana. O sítio arqueológico, localizado cerca de 15 quilômetros a nordeste da cidade de Şanlıurfa, no sudeste da Turquia, tornou-se mundialmente famoso como 'o templo mais antigo da humanidade'. Mas essa manchete, repetida milhares de vezes, esconde uma verdade mais complexa e muito mais interessante.
O próprio projeto de pesquisa do Instituto Arqueológico Alemão questiona hoje o termo 'templo'. E não é apenas uma discussão semântica: trata-se de uma mudança profunda no que sabemos sobre quem construiu Göbekli Tepe, como viviam essas pessoas e o que realmente aconteceu com os edifícios monumentais há 10 mil anos. Vamos aos fatos que a ciência estabeleceu até agora.
O monte que ninguém viu durante décadas
Göbekli Tepe fica no ponto mais alto da árida cordilheira de Germuş. O monte tem cerca de 15 metros de altura, diâmetro de aproximadamente 300 metros e área de cerca de 9 hectares. Mas aqui está o primeiro dado impressionante: o monte inteiro é artificial. Cada centímetro desses 15 metros de altura é composto de depósitos arqueológicos acumulados ao longo de milênios.
O local era conhecido desde a década de 1960, quando um levantamento arqueológico das Universidades de Istambul e Chicago, sob direção de Halet Çambel e Robert Braidwood, observou grande quantidade de artefatos de sílex na superfície. Mas a arquitetura monumental passou completamente despercebida. Peter Benedict, em seu relatório do levantamento, descreveu o local como um conjunto de montes de terra avermelhada separados por depressões. Ele achou que fossem dois pequenos cemitérios islâmicos.
A redescoberta veio três décadas depois. Klaus Schmidt visitava sítios neolíticos do sudeste turco em 1994 quando reconheceu grandes blocos de calcário que lembravam as cabeças em forma de T dos pilares escavados em Nevalı Çori, sítio neolítico poucos quilômetros ao norte, onde vinha trabalhando havia vários anos. As escavações começaram no ano seguinte, em 1995, com apoio inicial de Adnan Mısır, então diretor do Museu de Urfa, e Harald Hauptmann, diretor do Departamento de Istambul do Instituto Arqueológico Alemão.
Pilares sem rosto: a arquitetura que desafia expectativas
As instalações que tornaram Göbekli Tepe famoso são pilares monolíticos em forma de T, dispostos em círculo ao redor de um par central de pilares maiores, também em T. Os pilares do par central têm mais de 5 metros de altura. Os maiores pilares em T chegam a cerca de 5,5 metros de altura.
A maioria é decorada com representações de animais, principalmente espécies selvagens menores: muitas aves, predadores especialmente raposa, aranhas e insetos. As imagens aparecem em baixo-relevo, às vezes em alto-relevo. Vários pilares mostram braços e mãos. Em dois casos, as mãos aparecem apoiadas sobre um cinto, de que também pende um pedaço de tecido.
Por causa dessas características humanas, os pilares em T são interpretados como estátuas antropomórficas. Mas há um detalhe marcante: os pilares são sem rosto. Não têm olhos, nariz nem boca. Permanecem sem individualidade. Essa ausência de feições é intencional e levanta questões sobre o que essas figuras representavam para seus criadores.
Até agora, oito grandes edifícios com pilares em T foram identificados, designados por letras de A a H. Quatro foram parcialmente escavados. Nos edifícios C e D, os pisos foram feitos por polimento artificial da rocha natural; os pilares centrais foram assentados em encaixes escavados na própria rocha. O Edifício Especial B tem piso de cal, provavelmente feito para imitar os pisos de rocha natural dos outros recintos.
A cronologia que muda tudo
Os depósitos arqueológicos de Göbekli Tepe pertencem ao Neolítico Pré-Cerâmico. As camadas mais antigas são do PPN A, aproximadamente 9.600 a 8.800 cal AC. As camadas seguintes são do PPN B antigo e médio, aproximadamente 8.800 a 8.000 cal AC. Períodos PPN B tardio e posteriores estão claramente ausentes no sítio.
As datações por radiocarbono foram feitas em restos orgânicos recuperados do preenchimento dos recintos e do revestimento de parede. Os eventos de preenchimento terminaram por volta de 8.000 cal AC. Isso significa que estamos falando de um sítio que estava ativo há cerca de 11 mil anos, muito antes das primeiras cidades mesopotâmicas, muito antes das pirâmides egípcias.
Investigações geofísicas, incluindo radar de penetração no solo, sugerem que muitos outros edifícios com pilares em T permanecem soterrados. Os arqueólogos escavam apenas o necessário: escavar também significa destruir contextos arqueológicos. Não está descartado que escavações futuras encontrem vestígios ainda mais antigos, do Paleolítico tardio.
A grande virada: de templo sazonal a assentamento ritual
Aqui chegamos ao ponto mais importante deste artigo. A interpretação de Göbekli Tepe mudou radicalmente nos últimos anos, e essa mudança ainda não chegou ao conhecimento do grande público.
Antes se acreditava que faltavam no sítio vestígios típicos de ocupação: fogueiras, lareiras, figuras de argila, furadores e pontas de osso. A partir disso, pensava-se que o local era ocupado apenas de forma sazonal, talvez para festivais religiosos. A imagem era de grupos de caçadores-coletores que se reuniam periodicamente para cerimônias em torno dos pilares monumentais, mas que não viviam ali permanentemente.
Achados e resultados recentes mudaram completamente essa leitura. Foram encontrados: instalações de fogo; muitos restos de alimentos consumidos, incluindo animais e grãos; estruturas interpretadas como cisternas para coletar água; sepultamentos; e muitos edifícios presentes além dos recintos monumentais.
Hoje, o sítio é interpretado como um local de ocupação, ou seja, um assentamento, com um componente ritual acentuado representado pelos edifícios especiais. As pessoas viviam ali, comiam ali, morriam ali. E também realizavam atividades rituais de natureza ainda não completamente compreendida.
Por que 'templo' não é o melhor termo
O próprio projeto de pesquisa considera que 'templo' talvez não seja o melhor termo. A razão é simples: a palavra 'templo' está associada a edifícios que são casas de divindades, conceito que só podemos identificar em culturas com registro escrito. Não temos como saber se os construtores de Göbekli Tepe tinham deuses no sentido que entendemos, nem se os edifícios especiais eram dedicados a entidades sobrenaturais específicas.
A formulação que o projeto prefere é: 'os edifícios especiais com componente ritual mais antigos escavados até hoje no mundo'. É menos chamativo, mas muito mais preciso. Cromeleque dos Almendres, em Portugal, também desafia classificações simples como 'templo', mostrando que a arquitetura ritual pré-histórica era mais complexa do que nossas categorias modernas sugerem.
Quem construiu e como
Pelo contexto cronológico e cultural dos achados, pode-se assumir com segurança que os recintos foram construídos e usados por caçadores-coletores, provavelmente semissedentários, que começavam a adotar um modo de vida sedentário e, mais tarde, produtor de alimentos.
Mas aqui está o problema: a construção exigiria mão de obra considerável, superior ao número de pessoas de um único grupo de caçadores-coletores. Exigiria planejamento e coordenação, o que sugere algum nível de estratificação social dentro e entre grupos. Alimentos precisariam ser disponibilizados para os trabalhadores durante a construção.
A domesticação do trigo einkorn pode ser rastreada até a vizinhança do monte Karacadağ, próximo ao sítio. Isso sugere que a transição entre caça-coleta e agricultura estava acontecendo exatamente nessa região, exatamente nesse período. Göbekli Tepe pode ter sido tanto causa quanto consequência dessa transformação: a necessidade de alimentar construtores pode ter impulsionado a domesticação de plantas, ou a abundância de recursos pode ter permitido a construção monumental.
O enterro que não foi intencional
Outra crença amplamente divulgada sobre Göbekli Tepe era que os edifícios especiais foram intencionalmente preenchidos ou enterrados, como se os construtores tivessem decidido, por razões rituais, sepultar sua própria obra.
Resultados recentes mostraram que o processo de preenchimento foi muito mais complexo do que se pensava. Houve fatores humanos, como despejo de sedimentos durante a construção de novas estruturas, e eventos naturais de deslizamento no decorrer de processos naturais e desastres, incluindo chuvas fortes e terremotos, que também acabaram depositando sedimentos dentro dos edifícios.
Houve vários eventos de preenchimento, separados no tempo. Não foi um único gesto ritual de enterro, mas um processo gradual, acidental em parte, intencional em parte. Ainda não se sabe quanto tempo cada edifício esteve em uso antes disso, nem a duração exata do processo de preenchimento. Também não se sabe por que pararam as constantes reformas e reconstruções que caracterizaram os períodos anteriores.
O que Göbekli Tepe não é
O sucesso midiático de Göbekli Tepe atraiu todo tipo de especulação pseudocientífica. O próprio projeto de pesquisa mantém uma etiqueta 'pseudoarqueologia' no blog e publica textos para rebater alegações falsas sobre o sítio. Vale a pena esclarecer o que a equipe de arqueólogos desmente categoricamente:
- Jardim do Éden: a equipe do projeto discorda completamente de qualquer paralelo entre Göbekli Tepe e o Jardim do Éden bíblico, para o qual não existe absolutamente nenhuma evidência arqueológica. Göbekli Tepe fica perto da planície de Harran, cenário de narrativas bíblicas, mas a associação termina aí. Qualquer coisa além disso é pura conjectura.
- Extraterrestres: a resposta da FAQ oficial do projeto à pergunta 'É verdade que alienígenas construíram os edifícios especiais de Göbekli Tepe?' é, literalmente: 'No.'
- Stonehenge: não há conexão direta entre Göbekli Tepe e Stonehenge, que é cerca de 6 mil anos mais recente. A comparação se limita ao caráter megalítico e à possibilidade de ambos terem funcionado como centros rituais importantes.
- Astronomia: a equipe trabalha com especialistas em arqueoastronomia, mas até agora não foi possível identificar vínculos entre fenômenos astronômicos e a orientação dos pilares ou dos recintos.
Pistas de práticas funerárias
O repertório iconográfico de Göbekli Tepe inclui muitas representações de abutres, hienas, cabeças humanas e corpos sem cabeça. A avifauna do sítio é dominada por corvídeos necrófagos, com abutres também frequentes. Isso pode indicar a prática de excarnação, processo no qual os corpos dos mortos eram expostos para que aves de rapina consumissem a carne antes do sepultamento dos ossos.
Foram encontradas várias cabeças de calcário, com borda de quebra na região do pescoço, indicando que originalmente faziam parte de estátuas maiores. O 'Homem de Urfa', considerado a escultura de corpo inteiro mais antiga conhecida de um ser humano, foi encontrado durante obras na área do sítio neolítico de Urfa-Yeni Yol, não em Göbekli Tepe, mas pertence ao mesmo contexto cultural e cronológico.
A combinação de iconografia funerária, restos de aves necrófagas e sepultamentos encontrados no sítio sugere que Göbekli Tepe pode ter tido função de necrópole, além de assentamento e centro ritual. Mais uma vez, as categorias se sobrepõem: vida, morte e ritual aconteciam no mesmo espaço.
O projeto hoje e o que vem pela frente
Klaus Schmidt dirigiu o projeto até sua morte, em 2014. Depois disso, as escavações continuaram com sua equipe, liderada por Müslüm Ercan, do Museu de Şanlıurfa, e Lee Clare, do Instituto Arqueológico Alemão. Em 2020, a direção passou para o professor Necmi Karul, da Universidade de Istambul, com Lee Clare como coordenador do projeto.
Necmi Karul também dirige o sítio neolítico de Karahantepe. Desde 2021, Göbekli Tepe e Karahantepe fazem parte do projeto 'Taş Tepeler', que pesquisa vários outros sítios neolíticos antigos na região de Şanlıurfa. A descoberta é que Göbekli Tepe não era único: havia toda uma tradição regional de construção de edifícios com pilares em T.
O sítio é aberto ao público, com visitas guiadas. A área de escavação cercada é estritamente proibida a visitantes por questões de segurança. Foram instalados abrigos permanentes para preservar a arqueologia exposta e facilitar o acesso turístico. O projeto tem acordo de apoio de longo prazo com a Fundação Alemã de Pesquisa.
O que ainda não sabemos
Apesar de décadas de escavação, Göbekli Tepe continua cheio de mistérios. Não sabemos quanto tempo cada edifício esteve em uso. Não sabemos por que as reformas e reconstruções pararam. Não sabemos se havia hierarquia religiosa ou política entre os construtores. Não sabemos o significado exato dos animais representados nos pilares.
Não sabemos por que os pilares são sem rosto. Não sabemos se os edifícios tinham teto e, se tinham, como era a estrutura. Não sabemos quantos edifícios ainda estão soterrados. E não sabemos se camadas mais profundas, do Paleolítico tardio, aguardam descoberta.
O que sabemos é que cada nova temporada de escavação muda a interpretação do sítio. A história de Göbekli Tepe não é a história de um templo misterioso construído por caçadores-coletores e depois enterrado. É a história de um assentamento complexo, onde pessoas viviam, trabalhavam, comiam, morriam e realizavam rituais que não compreendemos totalmente. É a história de uma sociedade em transição, entre a caça-coleta e a agricultura, entre o nomadismo e a vida sedentária.
E é a história de como a ciência muda de ideia quando surgem novos dados. As manchetes sensacionalistas congelam Göbekli Tepe no tempo, mas a arqueologia real é um processo dinâmico de revisão constante. A Formação de Durupinar, também na Turquia, mostra como interpretações precipitadas podem distorcer sítios arqueológicos e a importância de seguir o método científico.
O que você acha mais fascinante em Göbekli Tepe: a arquitetura monumental ou o fato de que nossa interpretação do sítio continua mudando?
Perguntas frequentes
Göbekli Tepe é realmente o templo mais antigo do mundo?
Quem construiu Göbekli Tepe?
Por que os pilares de Göbekli Tepe não têm rosto?
Göbekli Tepe foi intencionalmente enterrado?
Existe alguma ligação entre Göbekli Tepe e o Jardim do Éden bíblico?
Quanto de Göbekli Tepe já foi escavado?